Thursday, July 29, 2010

Inception

Quer os ”pseudo-intelectualoides bebedores de chá na esplanada da Cinemateca” queiram, quer não, os novos grandes filmes do cinema estão a ser também blockbusters. O cinema mudou. O cinema para as grandes massas já não é apenas vazio, oco e fútil. Tudo começou com Hitchcock e, o último grande exemplo disso é Christopher Nolan. O cinema de autor também vende bilhetes, senhores realizadores portugueses.

O cinema de autor está a ter orçamentos grandes, explosões e a agradar a muita gente. O cinema que está a mudar a história do cinema está, além de fazer amor e miminhos com a nossa exigente intelectualidade, a agradar visualmente. Entretêm, além de nos surpreender, hipnotizar e rejuvenescer.

Para falar de “Inception” quero ir buscar o “Matrix”. Na minha opinião, “Matrix” é o filme mais importante dos anos 90. Sim, eu lembro-me do “Titanic” e do peso que teve mas foi o filme dos irmãos Wachowski que mostrou ao cinema, uma nova linguagem, um novo estilo, um novo caminho. O "Titanic" só pôs adolescentes a chorar compulsivamente, não mudou nada a não ser a carreira dos protagonistas.

O “Matrix” redefiniu a maneira de se contar histórias tendo em conta a componente visual. Porque, porra, é importante. É cinema, de que estamos a falar! É um ecrã gigante, convém que seja atractivo além de bom. Nesta década em que estamos, que filme fez isso? O “Avatar”? O “Avatar” fê-lo apenas em termos técnicos. Tem essa importância, de facto, mas sem chegar ao patamar da história e da emoção. Matrix tinha tido isso. 11 anos depois, aparece-nos “Inception”, um filme que volta a vincar os dentes no lombo da história do cinema.


Tal como “Matrix”, “Inception” é novo, original e comercial. É uma lufada de ar fresco que demonstra que o cinema não morreu. Que ideias originais, boas e megalómanas podem chegar a grandes ecrãs e redefinir a maneira como o cinema vai ser feito. (Mesmo tendo em conta que aqui se inventa mais que no Matrix, altamente baseado no “Ghost In A Shell”).

Não vou falar da história. Porque o meu blog é pequeno e porque ela tem de ser acompanhada (e bem acompanhada) pelo espectador na sala. Vou dizer que é O meu tipo de histórias. Os meus filmes favoritos são “Fight Club”, “Memento”, “Eternal Sunshine Of The Spotless Mind”, “Oldboy” e “Shutter Island”. O que têm em comum? A exploração das capacidades, defeitos e virtudes da mente humana. E “Inception” mexe-se nessa praia. Mas num canto dessa mesma praia onde ninguém ainda pisou areia.

Ontem sai da sala com a mesma cara de parvo, no mesmo estado de choque, que sai dos melhores filmes da minha vida. Ontem sai da sala de cinema com o mesmo “gostinho” na boca dos filmes mais importantes da minha vida. Sai da sala de cinema contente por saber que o cinema ainda pode ser original no meio de um mar de remakes, sequelas e chicletes coladas em tampos de cadeiras. Sai do cinema sabendo que ainda há génios que vão ficar na história da sétima arte. Sai do cinema com a consciência de que Nolan me tinha implantado uma ideia no subconsciente (quando sabemos que uma ideia pode mudar a maneira como nós somos...)

Se eu gostei de “Inception”?
É o tipo de filmes que me levou a estudar cinema.
É o tipo de filmes que me levou a querer escrever para saborear a vida.

4 comments:

tracey said...

que grande post! quero tanto ir ver o inception.

Anonymous said...

Gostei do teu post.
E respeito bastante a tua opinião.
Como sabes, as referências de cada um variam conforme o tamanho, a idade, o azar e a sorte, e até os amigos, que que nos influenciem e "implantem ideias". Se os filmes da minha vida são o "Blade Runner", o "Amadeus" e "E la nave va", este "Inception" também fica na minha gaveta reservada aos poucos filmes que me formaram e me fizeram ser quem sou. Podia fazer uma lista de espera dos que gostavam de ter tido esse direito, como o "Matador" do Almodovar, mas prefiro falar deste "A Origem", conforme o chamaram cá na terra.

Viste que afinal é uma história de amor ? Viste que os soldadinhos que garantem a acção não passam de bonecos articulados/personagens de jogo video e que a vida e a morte só valem pela falta que os mortos nos fazem ? Viste que o importante não é o que sonhaste mas o que viveste ? Viste que o espaço e o tempo são manuseáveis conforme a nossa mente quer ? Viste que por mais poder que tenhas (comprei a companhia de aviação para ser mais fácil controlar a 1ª classe...) a forma como o exerces é muito mais inteligente e objectiva do que parece ? Viste como a paixão pode ser um sonho dentro do sonho e afinal o objecto da nossa paixão ter um sonho ou completamente diferente do nosso ou não dar importância ao que foi fundamental para nós ? Viste como a Arquitectura é eterna e efémera ao mesmo tempo ? Viste como a beleza das coisas e das pessoas está nos olhos de quem vê e não nelas próprias ? Viste... ?
Eu vi. E vou ver mais uns quantas vezes, porque vou comprar o Inception quando for possível e revê-lo todo, ou partes, ou o que o desejo me fizer querer...

Um abraço de outro cinéfilo que por acaso é teu Pai :-)

João Bastos said...

Este senhor arrisca-se (se nao estiver ainda) a ficar na história... E daqui a 100 anos ainda vamos falar dos filmes que realizou... Os seus principais filmes são todos quasi obras-primas.
E "Memento" nem é dos meu preferidos... Eu acho que "The Prestige", ou as duas adaptações de Batman melhores. Este Inception é um clássico instantâneo! Obra-prima absoluta! Banda-sonora de bradar aos céus (pelas melhores razões), e no entanto poucos prémios realmente importantes irá ganhar!

Gui said...

Tracey,
Espero que já tenhas vistos entretanto. Eu já repeti a dose. ;)

Pai,
Não podia concordar mais com cada palavra tua... mas não sei se as "Traceys" pela internet fora vão gostar de ter o filme tão esmiuçado sem o terem visto... mas olha, já tiveram mais que tempo para irem ver.

João,
Por acaso, acho que se passa com o Nolan o mesmo que se passa com o Lebron na NBA. Por muito talento que tenhas, acho que é preciso ganhar uns prémiozinhos para ficar na história. Eu acho que ele ganha alguma coisa. Não tanto como eu gostaria mas ganha. O filme exige que sim...