A partir da próxima semana vou começar a apresentar o Inferno todas as sexta-feiras.
Para o mal e para o bem, até que o Bairro nos separe.
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Tuesday, February 28, 2012
Friday, October 14, 2011
Ra/elação
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| Adenda abonatória: eu não faço esta cara de parvo. |
E apesar de a relação ser óptima, de eu gostar muito dela e de sermos tão fofos que merecíamos um autêntico cartão de "Feliz Dia dos Namorados" só com a nossa fronha, aconteceu algo que me apanhou de surpresa.
Maior parte das coisas que acontecem numa relação são subtis. Ninguém está constantemente a avaliar o que se passa até as coisas correrem horrivelmente mal. Ou espectacularmente bem. (O que pode acontecer ao mesmo tempo, se por exemplo, estiverem numa ménage-à-trois e forem acidentalmente queimados com cera quente no escroto.) Mas adiante.
Independentemente de quem "controla" a relação na altura, durante a maior parte do tempo eu acho que a condução é repartida. A diferença principal é que as mulheres têm consciência do que estão a fazer enquanto que os homens só sabem que estiveram a controlar a coisa quando é tarde demais e fizeram asneira. A verdade é que no outro dia eu e a minha respectiva (a tal do cartão do "dia dos namorados", mantenham-se atentos, se faz favor) fomos a uma festa e fomos apresentados a um grupo de 5 raparigas.
As ditas eram jovens, alegres, pimpinantes e demonstravam uma aura de juventude e sensualidade que chamaria a atenção de qualquer homem com pelos menos 2 dos 5 sentidos a funcionar. "Olá, prazer" aqui, "olá prazer", acolá. Damos beijinhos, ficamos apresentados para todo o sempre e continuamos a nossa festa. Pois foi no rescaldo de toda esta civilizada apresentação que a minha namorada me diz, com um ar demasiado neutro e natural, as fatídicas palavras: "aquela X é mesmo o teu tipo". Citando Passos Coelho, foi um murro no estômago. Foi com esta pontaria digna de um árabe em dia de lapidação que a minha namorada acertou exactamente na rapariga, das 5, que tinha captado a minha (sempre fiel) atenção. E isto é perigoso.
Um ano depois de nos apaixonarmos, de nos conhecermos e de eu ocasionalmente (e discretamente) espreitar para saia alheia, a minha namorada já consegue perceber o meu "tipo", e pior, "identificá-lo", "rotulá-lo" e "enviá-lo para abate". Não que eu a queira, ou vá, trair mas porque me retira a única forma de emancipação que eu julgava que tinha na relação. Ela já sabe que raparigas eu acho piada. A mulher com quem partilho saliva e outros fluidos que tais, já está dois passos à minha frente. A verdade é que esta capacidade de leitura da minha namorada só seria proveitosa se ela me estivesse a preparar uma orgia surpresa como prenda de anos. Como não está - e acreditem que eu pergunto algumas vezes se está - não tem piada nenhuma.
Não sei como é que isto se resolve - se com dicas falsas, se com pistas erradas, se com emigração para outro continente. A verdade é que sinto no meu dever avisar e preparar todos os leitores (e leitoras, que elas também espreitam calça de ganga alheia) como se devem desviar deste embate frontal, sem airbag, com a previsibilidade.
- Primeiro, nunca confessem quem é a vossa verdadeira paixão cinematográfica. É a maior pista que podem dar do tipo de ser humano que vos atrai.
- Segundo, se em algum momento em que estão com a vossa cara metade sentirem que ela(e) percebeu para quem vocês estavam a olhar, olhem imediatamente para a mulher/homem mais próximo. Mesmo que essa pessoa seja idosa, um sem-abrigo ou um grilo da EMEL.
- Terceiro, as mulheres são mais espertas que nós. Ou seja, elas não ligam ao óbvio, interpretam o subtil. Por isso, da próxima vez que for apresentado a um grupo de raparigas como eu fui, diga imediatamente que acha piada à pessoa que você acha piada. Não tente disfarçar, como costuma. A sua confissão tão frontal, honesta e directa irá confundir a sua cara metade, que irá estranhar (e ficar a digerir) a sua confissão durante bastante tempo. Tempo esse que lhe dá um bom avanço para a discussão que vem depois.
Eu não estou a defender o "pular fora da cerca", eu amo a minha namorada. Estou apenas a pegar naquilo que um amigo javardo costuma dizer ("não é por já ter comida no prato que não posso olhar para o menú, caraças") e a tratá-lo com a responsabilidade que o poder apreciar outras pessoas tem numa relação. O que é que se segue? Ela pedir a comida por mim em restaurantes? Escolher a roupa que vou vestir? Acabar as minhas frases? Tremo só de pensar.
A única coisa que ser previsível fará pela minha relação é matá-la.
E ninguém gosta de saber que foi o mordomo, com o candelabro, na cozinha, antes do filme acabar.
Thursday, September 08, 2011
Fry
"I worried that i was going to have to be primarily a writer. Why worry, you might ask? Well, although it is true that one feels fantastic when one has finished a writing task, it is mostly horrible while one is doing it. You will see therefore that writing, ghastly at the time but great afterwards, is exactly the opposite of sex. All that keeps one going is the knowledge that one will feel good when it's all over. I knew, as all writers know, that performers have a much easier life. They swan about being admired, recognized, pampered, praised and told how wonderful they are and what energy and resource and strength they have to cope with the pressure. Pah. They only work while they are in rehearsal, on set or on stage; for the rest of the time they can get up late and laze and lounge about like lords. Writers on the other hand are in a permanent state of school exam crisis. Deadlines croak and beat their wings above them like sinister rooks; producers, publishers and performers nag for rewrites and improvements. Any down time looks like evasion and indolence. There is no moment at which one cannot, and should not it seems, be at one's desk. It is also a desperately lonely calling.
(...)
Hugh (Laurie) and i were writer-performers - we wrote the material that we performed. I could not decide whether this meant we had the best of both worlds or the worst. To this day i cannot be sure."
Stephen Fry em The Fry Chronicles: onde fala da sua juventude, carreira, amores e amizade com Hugh Laurie e Emma Thompson.
(...)
Hugh (Laurie) and i were writer-performers - we wrote the material that we performed. I could not decide whether this meant we had the best of both worlds or the worst. To this day i cannot be sure."
Stephen Fry em The Fry Chronicles: onde fala da sua juventude, carreira, amores e amizade com Hugh Laurie e Emma Thompson.
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Wednesday, September 07, 2011
* wink *
Um taxista desejou-me um fim de semana "calminho mas com putaria".
Fosse eu pivot de telejornal e era assim que me despedia.
Fosse eu pivot de telejornal e era assim que me despedia.
Friday, August 19, 2011
Fringe
Aos católicos dizem-lhes que quando morrerem - e depois de se portarem bem, claro - que vão para o paraíso, um sítio onde toda a família deles que já morreu lá está à espera, de braços abertos.
Aos muçulmanos dizem-lhes que quando morrem - e depois de se portarem mal, claro - que vão para o paraíso, um sítio onde todas as virgens que eles quiserem lá estão à espera, de pernas abertas.
Aos comediantes não dizem nada sobre o momento em que eles morrem. Mas eles também têm um paraíso. Chama-se Fringe, dura todo o mês de Agosto, é em Edimburgo e tem milhares de espectáculos de comédia à espera deles, de portas abertas.
Este ano eu fui. Não bebi uma cerveja aqui. Não vi um filme no cinema ali. Escrevi que me matei por - e para - todo o lado e lá fui eu gastar o dinheiro poupado na Escócia. E valeu cada pence.
Com 1400 espectáculos diários não se pode dizer que "não se sabe bem o que se vai fazer hoje". Sabe-se. Só não se tem a certeza de onde e ver quem, na verdade. Há demasiados tipos de espectáculos, em demasiados sítios diferentes. Edimburgo é pequena e rebenta pelas costuras de pessoas, eventos e mini-saias vestidas por Inglesas durante Agosto. Há dezenas de pessoas a forçarem-nos panfletos para a mão, a convencerem-nos de espectáculos que vamos perder e não devíamos. Escadarias e paredes perdem a cor original de tão tapadas que estão de posteres e cartazes. E depois há as salas. Eu vi espectáculos em salas de conferências para 600 pessoas, bares para 80, salas de aula para 60, caves para 30, arrecadações para 15 e o interior de uma ponte para 100. Mesmo.
Edimburgo é uma espécie de orgia constante. A qualquer momento uma pessoa pode entrar num bar ou abrir uma porta e estar dentro de um espectáculo de comédia, música, magia, teatro ou dança. Há de tudo. Em, literalmente, todo o lado. Gosto de pensar que estive em Edimburgo a ver espectáculos e que pelo meio tive de ir parando para comer, apanhar chuva e beber copos em discotecas repletas de pessoas que precisavam de estar dentro de discotecas. Quando eu digo que há espectáculos por todo o lado, podem ser marinheiros a dançar Riverdance, bêbados, ou inglesas a dançarem só de sutiã vestido. Acontece quando os britânicos bebem demais. Nós agradecemos.
Estive por lá 4 dias, de Domingo a Quinta, e tinha como objectivo comer, dormir e ver stand-up comedy. Consegui. Mesmo que não quisesse ir ser difícil. Há espectáculos de 16 libras a 0. Sim, 0. O espectador entra na sala, vê o espectáculo e no fim decide se quer dar umas moedas ao artista ou sair da sala envergonhado e viver com a culpa para sempre. Acho que ainda não disse isto mas... há de tudo.
Vi espectáculos caros de grandes estrelas. Vi artistas que nunca tinha ouvido falar. Vi stand-up grátis que adorei. Vi magia, mímica cómica, música e críticas a notícias. Até vi um evento privado no qual apenas se entrava de palavra passe. Basicamente, aproximei-me de uma porta e tive de dizer a um jovem - que não desfez até ao momento final - "i promise i will not have a boner". E ele deixou-me entrar. Deixo o mistério se depois tive ou não.
O ambiente é óptimo e respira-se boa onda e comédia entre cada golo de pint. Fiquem sabendo que maior parte dos artistas espera no final do espectáculo à porta da sala, para agradecer e apertar a mão aos espectadores. Conheci o Dave Gorman, que me assinou um dvd e me disse que "Guilherme" não era assim tão difícil de dizer, e o Tom Green. Sim, o americano. Que passou pelo meu grupo e perguntou - de forma estranha e 4 vezes seguidas - "Are you cool? Everything ok?". Foi estranho. Mas era o Tom Green.
Espero que a lista de artistas, aqui por ordem cronológica, diga tudo:
- Caroline Maybe's One Minute Silence
- Markus Birdman Dreaming
- Stand Up Late
- Dan Willis RadioHead
- Dan Willis Inspired
- The Boy With Tape on His Face
- AAA Stand-up Late
- Todd Barry: American Hot
- Sammy J and Randy: Ricketts Lane
- Ed Byrne: Crowd Pleaser
- Midnight Laughzzzz
- Jimmy McGhie: Artificial Intelligence
- The Free Daily Topical Show
- Dave Gorman's Power Point Presentation
- Barry & Stuart: the Show
- Barry & Sturat: the Tell
- Sammy J: private event recording
...e em 90 horas de festival.
Uns foram maravilhosos. Outros bons. Outros surpreendentes. Alguns... interessantes.
Mas nenhum me tirou a vontade de, para o ano, morrer outra vez e ressuscitar uns dias depois.
Sei que tenho um paraíso à espera.
Aos muçulmanos dizem-lhes que quando morrem - e depois de se portarem mal, claro - que vão para o paraíso, um sítio onde todas as virgens que eles quiserem lá estão à espera, de pernas abertas.
Aos comediantes não dizem nada sobre o momento em que eles morrem. Mas eles também têm um paraíso. Chama-se Fringe, dura todo o mês de Agosto, é em Edimburgo e tem milhares de espectáculos de comédia à espera deles, de portas abertas.
Este ano eu fui. Não bebi uma cerveja aqui. Não vi um filme no cinema ali. Escrevi que me matei por - e para - todo o lado e lá fui eu gastar o dinheiro poupado na Escócia. E valeu cada pence.
Com 1400 espectáculos diários não se pode dizer que "não se sabe bem o que se vai fazer hoje". Sabe-se. Só não se tem a certeza de onde e ver quem, na verdade. Há demasiados tipos de espectáculos, em demasiados sítios diferentes. Edimburgo é pequena e rebenta pelas costuras de pessoas, eventos e mini-saias vestidas por Inglesas durante Agosto. Há dezenas de pessoas a forçarem-nos panfletos para a mão, a convencerem-nos de espectáculos que vamos perder e não devíamos. Escadarias e paredes perdem a cor original de tão tapadas que estão de posteres e cartazes. E depois há as salas. Eu vi espectáculos em salas de conferências para 600 pessoas, bares para 80, salas de aula para 60, caves para 30, arrecadações para 15 e o interior de uma ponte para 100. Mesmo.
Edimburgo é uma espécie de orgia constante. A qualquer momento uma pessoa pode entrar num bar ou abrir uma porta e estar dentro de um espectáculo de comédia, música, magia, teatro ou dança. Há de tudo. Em, literalmente, todo o lado. Gosto de pensar que estive em Edimburgo a ver espectáculos e que pelo meio tive de ir parando para comer, apanhar chuva e beber copos em discotecas repletas de pessoas que precisavam de estar dentro de discotecas. Quando eu digo que há espectáculos por todo o lado, podem ser marinheiros a dançar Riverdance, bêbados, ou inglesas a dançarem só de sutiã vestido. Acontece quando os britânicos bebem demais. Nós agradecemos.
Estive por lá 4 dias, de Domingo a Quinta, e tinha como objectivo comer, dormir e ver stand-up comedy. Consegui. Mesmo que não quisesse ir ser difícil. Há espectáculos de 16 libras a 0. Sim, 0. O espectador entra na sala, vê o espectáculo e no fim decide se quer dar umas moedas ao artista ou sair da sala envergonhado e viver com a culpa para sempre. Acho que ainda não disse isto mas... há de tudo.
Vi espectáculos caros de grandes estrelas. Vi artistas que nunca tinha ouvido falar. Vi stand-up grátis que adorei. Vi magia, mímica cómica, música e críticas a notícias. Até vi um evento privado no qual apenas se entrava de palavra passe. Basicamente, aproximei-me de uma porta e tive de dizer a um jovem - que não desfez até ao momento final - "i promise i will not have a boner". E ele deixou-me entrar. Deixo o mistério se depois tive ou não.
O ambiente é óptimo e respira-se boa onda e comédia entre cada golo de pint. Fiquem sabendo que maior parte dos artistas espera no final do espectáculo à porta da sala, para agradecer e apertar a mão aos espectadores. Conheci o Dave Gorman, que me assinou um dvd e me disse que "Guilherme" não era assim tão difícil de dizer, e o Tom Green. Sim, o americano. Que passou pelo meu grupo e perguntou - de forma estranha e 4 vezes seguidas - "Are you cool? Everything ok?". Foi estranho. Mas era o Tom Green.
Espero que a lista de artistas, aqui por ordem cronológica, diga tudo:
- Caroline Maybe's One Minute Silence
- Markus Birdman Dreaming
- Stand Up Late
- Dan Willis RadioHead
- Dan Willis Inspired
- The Boy With Tape on His Face
- AAA Stand-up Late
- Todd Barry: American Hot
- Sammy J and Randy: Ricketts Lane
- Ed Byrne: Crowd Pleaser
- Midnight Laughzzzz
- Jimmy McGhie: Artificial Intelligence
- The Free Daily Topical Show
- Dave Gorman's Power Point Presentation
- Barry & Stuart: the Show
- Barry & Sturat: the Tell
- Sammy J: private event recording
...e em 90 horas de festival.
Uns foram maravilhosos. Outros bons. Outros surpreendentes. Alguns... interessantes.
Mas nenhum me tirou a vontade de, para o ano, morrer outra vez e ressuscitar uns dias depois.
Sei que tenho um paraíso à espera.
Monday, August 01, 2011
Crónica de um salto anunciado
"Não há qualquer razão para um ser humano saltar de um avião" diziam-me antes de eu ir saltar de um avião. Eu achava que havia várias mas nenhuma sem o avião estar a arder ou estando-se em tempo de guerra.
Não obstante. Eu saltei.
Andei o mês todo do meu aniversário a pedinchar essa coisa suicida e a minha família e namorada compraram-me a experiência. Não é querido? A ideia de que as pessoas que mais gostam de nós gastaram dinheiro para que nos atirem de um avião a 4200 metros de altitude? Eu ter pedido não é desculpa.
O trajecto até Évora foi feito com piadas sobre morte, música dos Mamonas Assassinas e mais piadas sobre morte. Pelo meio perguntamo-nos o que queríamos ter feito em vida que não fizemos. Respondi "sexo com duas mulheres". O que me deixou a pensar "ora aí está uma experiência a que A Vida É Bela se podia dedicar. Mas não. Só saltinhos de aviões e passeios de limusina. Palhaços."
Chegados ao local, a ansiedade começa a percorrer o nosso corpo mais depressa do que um shot de tequilha às 3h da manhã. Não que a ansiedade nos faça andar pela rua sem calças mas porque a dois quilómetros de distância de chegares ao hangar onde vais pagar para saltar já vês um aviãozinho lá em cima no ar a cuspir pessoas pequenininhas. Aquilo vais ser tu. 5 minutos depois chegas ao hangar e quem é a primeira pessoa que vês à porta? Um homem de cadeira de rodas. Recomeçam as piadas sobre a morte.
Chega a altura de o hangar imitar uma repartição de finanças e teres de preencher 57 formulários com os teus dados. Entregas a papelada a uma mulher demasiado bem disposta e apercebes-te que te dizem "preencha os papeis com calma. Tenha calma. Não há problema. Tenha calma" a cada duas frases. Mas ela acha que as pessoas têm medo de saltar de um avião ou de escrever a sua morada e número de BI a caneta azul?
Preenches tudo, entregas, tentam vender-te saltos mais altos, fotografias, vídeos e/ou pára-quedas suplentes por mais 120 euros com 73% de desconto sobre os decibeis dos teus gritos quando saltares. Numa salganhada de preços e promoções que parecem a feira da ladra, o avião que te vai cuspir aterra atrás de ti. Vestes um conjunto de arneses que te fazem sentir 159 quilos mais pesado - deve ser para chegares cá a baixo mais depressa - e começas a dar atenção ao pormenores mais pequenos. Apertar os sapatos. Bem. Tirar o relógio. É melhor. Aconchegar os testículos na engenhosa e medieval peça de roupa que tens vestida. Como nunca antes o tinha feito.
Chegas ao avião. Começas a perceber que as pessoas à tua volta estão a duvidar da sua sanidade mental. E tu começas a duvidar da tua porque não começas a duvidar da tua. Parece complicado mas faz sentido. Dão-te 17 minutos de instruções de sobrevivência em 3 minutos. Tentas decorar tudo como um puto de apontamentos na mão à porta de um exame. Asseguram-te que "lá em cima" te repetem tudo. Aconchegas os testículos. Entras no avião. Vais saltar e acabou.
Descolas. Suas. Aconchegas. Sorris de forma amarela. Suas. Respiras fundo. E recebes novamente as instruções. Por motivos de ordem mágica decoras tudo. Se a tua vida dependesse de um teorema de Pitágoras tinha-lo decorado antes do exame do 7º ano. Garanto. Apertado dentro de um avião com outras 12 pessoas prestes a apontarem a sua testa ao centro da terra, perguntas a que altitude estás. Não tens noção. É algo entre "bué" e "alto pa' caralho". Respondem-te 1000 metros. Sabes que vais saltar aos 4200. Suas. Aconchegas. Sorris de forma amarela.
E de repente chega a tua vez. Já viste 12 macacos a desaparecerem, sugados por uma porta de avião. Chlump. Não há um senhor de voz grossa a gritar "go, go, go!" como nos filmes. Há gente eléctrica porque já saltou 7000 vezes e gente a suar como um obeso mórbido num clube de strip sem ar condicionado porque nunca saltou. Chlump. Mais um. Chlump. Outro. Chlump. Saltou outro. E é a tua vez. Aproximas-te da porta. Olhas lá para baixo e pensas "ah, é daqui que o Google Maps tira as fotos". Ficas suspenso a 4200 metros de altura e tão depressa como pensas "que bem que eu estava agora no meu sof..." começas a cair. Em direcção ao planeta.
E é espectacular. Mágico. Frenético. Calmo. Mórbido. Sexual. Diferente. Estúpido. E único. É a sensação mais completa, calma e injustificada que alguma vez terás na tua vida. Se pensarem que passam 98% da vossa vida com a gravidade controlada em cima de terreno sólido, não soará estranho que 60 segundos a cair - perdão, a morrer - em queda livre, sem explicação, razão ou grito que vos valha, se sinta no sangue. E é maravilhoso. Em todo o sentido saboroso da palavra. Olhas para a frente e vês o pôr-do-sol. Olhas para baixo e vês risquinhos bem traçados no chão onde um homem diz que acaba o seu quintal e começa o do seu vizinho. Vês terra. Muita terra. Sentes o vento pelo corpo todo. Mas só isso. Vento. Continuas a cair. E a este ponto só queres continuar a cair. Pode ser que acertes numa piscina e não precises do pára-quedas ou assim.
E quando o teu corpo já vai a 200 km/h, de repente e sem aviso, os teus pés aparecem-te no campo de visão. Abriram o pára-quedas. Reduziste para uns 60 km/h, mais coisa menos coisa. Sentes todo e qualquer arnês espalhado pelo teu corpo a apertar. Agradeces a ti próprio teres aconchegado os teus testículos 736 vezes antes e durante o voo. Sugerem-te que conduzas tu o pára-quedas. Dizes que sim já que a este ponto uma luta homem a homem com um TGV parece-te boa ideia. A sobrevivência é uma coisa simples e divertida que, mesmo sem sabermos, gostamos de desafiar. E quando estás a pairar, a não sei quantos metros de altura, pequenino para todos os outros pacóvios que estão agora a chegar de carro para saltarem depois de ti, pendurado por um pára-quedas, a olhar para o horizonte, para o pôr-do-sol... percebes que qualquer coisa mudou.
Quando a pior coisa que te tinha acontecido na vida tinha sido cair de um quarto degrau de um escadote, passar por isto muda uma pessoa. E mesmo que soe, isto não é conversa delico-doce. Muda mesmo. Aqueles 60 segundos são melhores que os 120 de quando perdeste a virgindade ou aqueles 4 de quando ias levando com um autocarro descontrolado numa auto-estrada. Aqueles 60 segundos a cair são teus. Para sempre.
E assim sendo, aterras.
Estás novamente a obedecer à gravidade.
Tentas desentupir os teus ouvidos.
Aconchegaste mais uma vez lá em baixo.
Preparas-te para tentar explicar a todas as outras pessoas na tua vida o que acabaste de fazer.
E percebes que não há qualquer razão para um ser humano querer saltar de um avião.
Mas que tu o queres fazer outra vez.
Não obstante. Eu saltei.
Andei o mês todo do meu aniversário a pedinchar essa coisa suicida e a minha família e namorada compraram-me a experiência. Não é querido? A ideia de que as pessoas que mais gostam de nós gastaram dinheiro para que nos atirem de um avião a 4200 metros de altitude? Eu ter pedido não é desculpa.
O trajecto até Évora foi feito com piadas sobre morte, música dos Mamonas Assassinas e mais piadas sobre morte. Pelo meio perguntamo-nos o que queríamos ter feito em vida que não fizemos. Respondi "sexo com duas mulheres". O que me deixou a pensar "ora aí está uma experiência a que A Vida É Bela se podia dedicar. Mas não. Só saltinhos de aviões e passeios de limusina. Palhaços."
Chegados ao local, a ansiedade começa a percorrer o nosso corpo mais depressa do que um shot de tequilha às 3h da manhã. Não que a ansiedade nos faça andar pela rua sem calças mas porque a dois quilómetros de distância de chegares ao hangar onde vais pagar para saltar já vês um aviãozinho lá em cima no ar a cuspir pessoas pequenininhas. Aquilo vais ser tu. 5 minutos depois chegas ao hangar e quem é a primeira pessoa que vês à porta? Um homem de cadeira de rodas. Recomeçam as piadas sobre a morte.
Chega a altura de o hangar imitar uma repartição de finanças e teres de preencher 57 formulários com os teus dados. Entregas a papelada a uma mulher demasiado bem disposta e apercebes-te que te dizem "preencha os papeis com calma. Tenha calma. Não há problema. Tenha calma" a cada duas frases. Mas ela acha que as pessoas têm medo de saltar de um avião ou de escrever a sua morada e número de BI a caneta azul?
Preenches tudo, entregas, tentam vender-te saltos mais altos, fotografias, vídeos e/ou pára-quedas suplentes por mais 120 euros com 73% de desconto sobre os decibeis dos teus gritos quando saltares. Numa salganhada de preços e promoções que parecem a feira da ladra, o avião que te vai cuspir aterra atrás de ti. Vestes um conjunto de arneses que te fazem sentir 159 quilos mais pesado - deve ser para chegares cá a baixo mais depressa - e começas a dar atenção ao pormenores mais pequenos. Apertar os sapatos. Bem. Tirar o relógio. É melhor. Aconchegar os testículos na engenhosa e medieval peça de roupa que tens vestida. Como nunca antes o tinha feito.
Chegas ao avião. Começas a perceber que as pessoas à tua volta estão a duvidar da sua sanidade mental. E tu começas a duvidar da tua porque não começas a duvidar da tua. Parece complicado mas faz sentido. Dão-te 17 minutos de instruções de sobrevivência em 3 minutos. Tentas decorar tudo como um puto de apontamentos na mão à porta de um exame. Asseguram-te que "lá em cima" te repetem tudo. Aconchegas os testículos. Entras no avião. Vais saltar e acabou.
Descolas. Suas. Aconchegas. Sorris de forma amarela. Suas. Respiras fundo. E recebes novamente as instruções. Por motivos de ordem mágica decoras tudo. Se a tua vida dependesse de um teorema de Pitágoras tinha-lo decorado antes do exame do 7º ano. Garanto. Apertado dentro de um avião com outras 12 pessoas prestes a apontarem a sua testa ao centro da terra, perguntas a que altitude estás. Não tens noção. É algo entre "bué" e "alto pa' caralho". Respondem-te 1000 metros. Sabes que vais saltar aos 4200. Suas. Aconchegas. Sorris de forma amarela.
E de repente chega a tua vez. Já viste 12 macacos a desaparecerem, sugados por uma porta de avião. Chlump. Não há um senhor de voz grossa a gritar "go, go, go!" como nos filmes. Há gente eléctrica porque já saltou 7000 vezes e gente a suar como um obeso mórbido num clube de strip sem ar condicionado porque nunca saltou. Chlump. Mais um. Chlump. Outro. Chlump. Saltou outro. E é a tua vez. Aproximas-te da porta. Olhas lá para baixo e pensas "ah, é daqui que o Google Maps tira as fotos". Ficas suspenso a 4200 metros de altura e tão depressa como pensas "que bem que eu estava agora no meu sof..." começas a cair. Em direcção ao planeta.
E é espectacular. Mágico. Frenético. Calmo. Mórbido. Sexual. Diferente. Estúpido. E único. É a sensação mais completa, calma e injustificada que alguma vez terás na tua vida. Se pensarem que passam 98% da vossa vida com a gravidade controlada em cima de terreno sólido, não soará estranho que 60 segundos a cair - perdão, a morrer - em queda livre, sem explicação, razão ou grito que vos valha, se sinta no sangue. E é maravilhoso. Em todo o sentido saboroso da palavra. Olhas para a frente e vês o pôr-do-sol. Olhas para baixo e vês risquinhos bem traçados no chão onde um homem diz que acaba o seu quintal e começa o do seu vizinho. Vês terra. Muita terra. Sentes o vento pelo corpo todo. Mas só isso. Vento. Continuas a cair. E a este ponto só queres continuar a cair. Pode ser que acertes numa piscina e não precises do pára-quedas ou assim.
E quando o teu corpo já vai a 200 km/h, de repente e sem aviso, os teus pés aparecem-te no campo de visão. Abriram o pára-quedas. Reduziste para uns 60 km/h, mais coisa menos coisa. Sentes todo e qualquer arnês espalhado pelo teu corpo a apertar. Agradeces a ti próprio teres aconchegado os teus testículos 736 vezes antes e durante o voo. Sugerem-te que conduzas tu o pára-quedas. Dizes que sim já que a este ponto uma luta homem a homem com um TGV parece-te boa ideia. A sobrevivência é uma coisa simples e divertida que, mesmo sem sabermos, gostamos de desafiar. E quando estás a pairar, a não sei quantos metros de altura, pequenino para todos os outros pacóvios que estão agora a chegar de carro para saltarem depois de ti, pendurado por um pára-quedas, a olhar para o horizonte, para o pôr-do-sol... percebes que qualquer coisa mudou.
Quando a pior coisa que te tinha acontecido na vida tinha sido cair de um quarto degrau de um escadote, passar por isto muda uma pessoa. E mesmo que soe, isto não é conversa delico-doce. Muda mesmo. Aqueles 60 segundos são melhores que os 120 de quando perdeste a virgindade ou aqueles 4 de quando ias levando com um autocarro descontrolado numa auto-estrada. Aqueles 60 segundos a cair são teus. Para sempre.
E assim sendo, aterras.
Estás novamente a obedecer à gravidade.
Tentas desentupir os teus ouvidos.
Aconchegaste mais uma vez lá em baixo.
Preparas-te para tentar explicar a todas as outras pessoas na tua vida o que acabaste de fazer.
E percebes que não há qualquer razão para um ser humano querer saltar de um avião.
Mas que tu o queres fazer outra vez.
Friday, June 24, 2011
Um email sério
Eu recebo e envio dezenas de emails por dia.
É a maneira como o trabalhador moderno conversa de trabalho. Os nossos colegas já não "falam" de trabalho. Trocam "mails". Já não têm reuniões. Ficam de "enviar aquele relatório". Já não discutem assuntos. Colocam-nos em "CC".
Mas entre tanta trampa de trabalho às vezes aparece trampa pessoal. Entre pessoas que insistem que o tamanho do meu pénis não é suficiente e a Amazon que me sugere centenas de euros de produtos que eu possa - e quero - comprar, recebi um que me tocou profundamente.
Não reconheci o emissor. Ou emissora, neste caso. Era uma mulher chamada Isabel Palmilha - e logo eu que adoro apelidos que estejam relacionados com sapataria de Ballet. No entanto, e apesar deste apelido, foi o "Assunto" que despertou a minha atenção. Versava apenas "Meu Deus do Céu". Não que eu seja religioso mas há certas junções de palavras e/ou interjeições que despertam a minha atenção. Basicamente, eu abro emails cujo assunto sejam coisas que se eu ouvisse alguém dizer no meio da rua, eu olhava na mesma direcção que essa pessoa. E - aparte de "Grandas Mamas" ou "Cum Caraças!" - "Meu Deus do Céu" é uma dessas coisas.
Abri o email e percebi que me falava ao coração mais do que eu poderia esperar. Era pessoal intransmissível e começava a assustar-me.
"Olá!
Não sei por onde começar...
Hoje estava checando meus emails, e infelizmente havia algo que eu nunca gostaria de ter visto."
Já percebem porque é que não parei de ler? Não ter nenhum amiga brasileira não era desculpa para parar agora. Esta pessoa queria mesmo avisar-me de alguma coisa e eu tinha de saber o que era. O que é que a Isabel sabe que eu não? Não estava preparado.
"Eu sei que você a criou como uma princesinha, e deu tudo do bom e do melhor para ela.
Então me sinto na obrigação de te contar, é melhor saber por um amigo próximo do que por algum estranho.
Neste email, há várias garotas de idades variadas com o seio à mostra, é algo muito sério, e infelizmente ela está lá."
Foi nesta altura que agradeci a mim mesmo não ser daqueles snobs intransigentes que ignora os mails que não lhe interessam. Se eu não tivesse aberto o mail da Isabel - expressão só por si perigosa - eu nunca teria ficado a saber que tenho uma filha. E muito menos que essa mesma filha mostra as mamas em sites porno. Meu Deus do Céu. Ainda bem que há internet.
Antes mesmo de reconhecer esta filha que eu não sabia que tenho - ou de a procurar, intensamente durante 327 visualizações, no vídeo porno que vinha linkado no mail que a Isabel me enviou - tenho de dizer uma coisa. Se eu tenho (ou um dia tiver) uma filha, eu quero que ela seja uma badalhoca.
Pensem nisto. Entre uma púdica parva e uma badalhoca alcoólica e boazona, quem é que tem mais futuro neste mundo? Pois é. Estudos provam que as pessoas extrovertidas, bonitas e abertas à sua sexualidade e emotividade são as mais sucedidas na sua vida profissional e emocional. E eu não quero uma filha que case com o primeiro gajo que lhe faça sexo oral. Eu não quero que a minha filha passe a adolescência a estudar e a ficar em casa à noite para depois, aos 50 anos, se divorcie e ande a comer os amigos dos filhos (meus netos) para compensar uma juventude perdida. Eu quero uma filha feliz.
Mesmo que seja neste link, Isabel.
Por isso, obrigado pela preocupação, pelo tempo dedicado e pela atenção, Isabel Palmilha - adoro.
Obrigado por zelar pela minha filha, já que eu, aparentemente, sou um pai ausente e disfuncional.
Agora, se me permitem, tenho só de descobrir onde ela anda.
E pedir-lhe mais trabalhos do seu repertório, claro.
É a maneira como o trabalhador moderno conversa de trabalho. Os nossos colegas já não "falam" de trabalho. Trocam "mails". Já não têm reuniões. Ficam de "enviar aquele relatório". Já não discutem assuntos. Colocam-nos em "CC".
Mas entre tanta trampa de trabalho às vezes aparece trampa pessoal. Entre pessoas que insistem que o tamanho do meu pénis não é suficiente e a Amazon que me sugere centenas de euros de produtos que eu possa - e quero - comprar, recebi um que me tocou profundamente.
Não reconheci o emissor. Ou emissora, neste caso. Era uma mulher chamada Isabel Palmilha - e logo eu que adoro apelidos que estejam relacionados com sapataria de Ballet. No entanto, e apesar deste apelido, foi o "Assunto" que despertou a minha atenção. Versava apenas "Meu Deus do Céu". Não que eu seja religioso mas há certas junções de palavras e/ou interjeições que despertam a minha atenção. Basicamente, eu abro emails cujo assunto sejam coisas que se eu ouvisse alguém dizer no meio da rua, eu olhava na mesma direcção que essa pessoa. E - aparte de "Grandas Mamas" ou "Cum Caraças!" - "Meu Deus do Céu" é uma dessas coisas.
Abri o email e percebi que me falava ao coração mais do que eu poderia esperar. Era pessoal intransmissível e começava a assustar-me.
"Olá!
Não sei por onde começar...
Hoje estava checando meus emails, e infelizmente havia algo que eu nunca gostaria de ter visto."
Já percebem porque é que não parei de ler? Não ter nenhum amiga brasileira não era desculpa para parar agora. Esta pessoa queria mesmo avisar-me de alguma coisa e eu tinha de saber o que era. O que é que a Isabel sabe que eu não? Não estava preparado.
"Eu sei que você a criou como uma princesinha, e deu tudo do bom e do melhor para ela.
Então me sinto na obrigação de te contar, é melhor saber por um amigo próximo do que por algum estranho.
Neste email, há várias garotas de idades variadas com o seio à mostra, é algo muito sério, e infelizmente ela está lá."
Foi nesta altura que agradeci a mim mesmo não ser daqueles snobs intransigentes que ignora os mails que não lhe interessam. Se eu não tivesse aberto o mail da Isabel - expressão só por si perigosa - eu nunca teria ficado a saber que tenho uma filha. E muito menos que essa mesma filha mostra as mamas em sites porno. Meu Deus do Céu. Ainda bem que há internet.
Antes mesmo de reconhecer esta filha que eu não sabia que tenho - ou de a procurar, intensamente durante 327 visualizações, no vídeo porno que vinha linkado no mail que a Isabel me enviou - tenho de dizer uma coisa. Se eu tenho (ou um dia tiver) uma filha, eu quero que ela seja uma badalhoca.
Pensem nisto. Entre uma púdica parva e uma badalhoca alcoólica e boazona, quem é que tem mais futuro neste mundo? Pois é. Estudos provam que as pessoas extrovertidas, bonitas e abertas à sua sexualidade e emotividade são as mais sucedidas na sua vida profissional e emocional. E eu não quero uma filha que case com o primeiro gajo que lhe faça sexo oral. Eu não quero que a minha filha passe a adolescência a estudar e a ficar em casa à noite para depois, aos 50 anos, se divorcie e ande a comer os amigos dos filhos (meus netos) para compensar uma juventude perdida. Eu quero uma filha feliz.
Mesmo que seja neste link, Isabel.
Por isso, obrigado pela preocupação, pelo tempo dedicado e pela atenção, Isabel Palmilha - adoro.
Obrigado por zelar pela minha filha, já que eu, aparentemente, sou um pai ausente e disfuncional.
Agora, se me permitem, tenho só de descobrir onde ela anda.
E pedir-lhe mais trabalhos do seu repertório, claro.
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Friday, June 17, 2011
"Dá-me Riso"
A convite do António Raminhos, amigo e colega de luta cómica, vou participar neste espectáculo amanhã, dia 18.O objectivo é simples: juntar malta cómica para fazer uma boa acção e actuar por solidariedade. Ou fazer rir. Mas podem ser os dois.
Assim sendo, estarão na Escola Secundária Passos Manuel pelas 21.30h o António Raminhos, o Luis Filipe Borges, o Luís Franco Bastos, o Pedro Fernandes, o Pedro Miguel Ribeiro, o Gustavo Vieira, o Alexandre Ovídio e a Rita Mendes. Todos vamos fingir que somos boas pessoas e tentar garantir um lugar de estacionamento no céu.
Apareçam que vai valer a pena.
Aqui fica a página do Facebook.
E o mapa para chegarem ao local.
Cuidado com os Mega Pic-Nics.
Thursday, June 16, 2011
London Ink
É verdade.
Fiz uma tatuagem.
Ou como lhe chamam as pessoas que já estão tatuadas, "a primeira".
No passado fim-de-semana fui a Londres e entre visitar museus, subir o London Eye e ver espectáculos de comédia, fui pagar a uma espanhola para me encher a perna de tinta. E não, não apanhei uma bebedeira. Parece que todas as tatuagens hoje em dia são feitas dessa maneira. Eu não bebi para fazer a minha. Bebi depois de fazer a minha. Parecendo que não é um espaço maior de tempo.
Mas apesar do impulso de a fazer no dia ter sido imediato, o desenho não foi. Tinha-o na cabeça há uns tempos e acho que é assim que convém. Quanto mais uma ideia para uma tatuagem amadurece na nossa cabeça, menos tempo estamos, na nossa velhice, a desculpá-la. Com a conversa do álcool e tal.
Querem vê-la? É linda.
Para quem se assustou, a fotografia foi tirada 24 horas depois de ter sido feito. Ou seja, a minha pele está a imitar um polvo obeso: inchada e a cuspir tinta. Com o tempo fica como as que vemos na Ana Malhoa, não se preocupem. Para quem não fala inglês, o que está escrito na pista de aterragem desflorestada que está a minha perna direita é "This is your life and it's ending one minute at a time." ou seja "Esta é a tua vida e está a acabar um segundo de cada vez". Fatalista? Pessimista? Alarmista? Não.
Muito pelo contrário. Foi escrita pelo Chuck Palahniuk, no livro/filme "Fight Club" e eu vejo-a como um carpe diem pós-moderno. É uma espécie de wake up call para a sociedade moderna. Mas não a fiz porque sinto que precise de um. Fi-la porque não quero nunca precisar de um. Com o tempo as pequenas formiguinhas calçadas de crocs que nós somos, tornamo-nos adultos e vamos adormecendo. Ficamos chatos, velhos, monótonos, sem sonhos, objectivos ou qualquer tipo de tesão. Porque é que só quando sabemos o tempo de descontos do jogo é que corremos mais para marcar um golo? Não podemos dar o máximo a partida toda?
A minha tatuagem não é mais do que um esforço do Guilherme de 24 anos para que o Guilherme de 54 anos nunca deixe de merecer a vida que teve - e que terá. Sim, porque o Guilherme de 24 anos quer ser ouvido através dos anos. É chato, está armado em rebelde e quer armar confusão com o de 54. Não quer que esse envelheça. Quero eternizar pelo tempo o prazer que tenho hoje em estar vivo.
Se estão a pensar fazer uma tatuagem, o meu único conselho é que pensem bem no desenho antes de o fazerem. E que tenham cuidado com o tatuador. Parecendo que não, ficar com a inabilidade de um mau profissional estampada na carne para todo o sempre, é coisa para chatear. Imaginem o que seria se a minha perna dissesse "This is your wife and it's ending one minute at a time."
Não era trabalhão ver-me obrigado só a casar com doentes terminais?
Eu, com 24 anos, acho que era.
Eu com 54, não sei. Vão ter de perguntar na altura.
Fiz uma tatuagem.
Ou como lhe chamam as pessoas que já estão tatuadas, "a primeira".
No passado fim-de-semana fui a Londres e entre visitar museus, subir o London Eye e ver espectáculos de comédia, fui pagar a uma espanhola para me encher a perna de tinta. E não, não apanhei uma bebedeira. Parece que todas as tatuagens hoje em dia são feitas dessa maneira. Eu não bebi para fazer a minha. Bebi depois de fazer a minha. Parecendo que não é um espaço maior de tempo.
Mas apesar do impulso de a fazer no dia ter sido imediato, o desenho não foi. Tinha-o na cabeça há uns tempos e acho que é assim que convém. Quanto mais uma ideia para uma tatuagem amadurece na nossa cabeça, menos tempo estamos, na nossa velhice, a desculpá-la. Com a conversa do álcool e tal.
Querem vê-la? É linda.
Para quem se assustou, a fotografia foi tirada 24 horas depois de ter sido feito. Ou seja, a minha pele está a imitar um polvo obeso: inchada e a cuspir tinta. Com o tempo fica como as que vemos na Ana Malhoa, não se preocupem. Para quem não fala inglês, o que está escrito na pista de aterragem desflorestada que está a minha perna direita é "This is your life and it's ending one minute at a time." ou seja "Esta é a tua vida e está a acabar um segundo de cada vez". Fatalista? Pessimista? Alarmista? Não.
Muito pelo contrário. Foi escrita pelo Chuck Palahniuk, no livro/filme "Fight Club" e eu vejo-a como um carpe diem pós-moderno. É uma espécie de wake up call para a sociedade moderna. Mas não a fiz porque sinto que precise de um. Fi-la porque não quero nunca precisar de um. Com o tempo as pequenas formiguinhas calçadas de crocs que nós somos, tornamo-nos adultos e vamos adormecendo. Ficamos chatos, velhos, monótonos, sem sonhos, objectivos ou qualquer tipo de tesão. Porque é que só quando sabemos o tempo de descontos do jogo é que corremos mais para marcar um golo? Não podemos dar o máximo a partida toda?
A minha tatuagem não é mais do que um esforço do Guilherme de 24 anos para que o Guilherme de 54 anos nunca deixe de merecer a vida que teve - e que terá. Sim, porque o Guilherme de 24 anos quer ser ouvido através dos anos. É chato, está armado em rebelde e quer armar confusão com o de 54. Não quer que esse envelheça. Quero eternizar pelo tempo o prazer que tenho hoje em estar vivo.
Se estão a pensar fazer uma tatuagem, o meu único conselho é que pensem bem no desenho antes de o fazerem. E que tenham cuidado com o tatuador. Parecendo que não, ficar com a inabilidade de um mau profissional estampada na carne para todo o sempre, é coisa para chatear. Imaginem o que seria se a minha perna dissesse "This is your wife and it's ending one minute at a time."
Não era trabalhão ver-me obrigado só a casar com doentes terminais?
Eu, com 24 anos, acho que era.
Eu com 54, não sei. Vão ter de perguntar na altura.
Saturday, May 14, 2011
Coisas que eu quero para os anos #2
Coisas que eu quero para os anos #3
Já só faltam 3 dias para o meu aniversário.
Quero que me paguem a minha dívida na Segurança Social.
Não é assim tão grande, vá.
Quero que me paguem a minha dívida na Segurança Social.
Não é assim tão grande, vá.
Thursday, May 12, 2011
Coisas que eu quero para os anos #4
Tuesday, May 10, 2011
Coisas que eu quero para os anos #5
Coisas que eu quero para os anos #6
Já só faltam 6 dias para o meu aniversário.
(Com um dia de atraso porque eu não quero que vos falte nada.
Nem a mim.)
Esta podem comprar-ma aqui.
(Com um dia de atraso porque eu não quero que vos falte nada.
Nem a mim.)
Esta podem comprar-ma aqui.
Sunday, May 08, 2011
Coisas que eu quero para os anos #7
Já só faltam 7 dias para o meu aniversário.
Esta prenda podem-ma comprar em praticamente todo o lado. Ou aqui.
(Quando estiver a saltar do avião, a uma distância considerável do meu sofá, prometo gritar um agradecimento à alma caridosa que ma comprar.)
Esta prenda podem-ma comprar em praticamente todo o lado. Ou aqui.
(Quando estiver a saltar do avião, a uma distância considerável do meu sofá, prometo gritar um agradecimento à alma caridosa que ma comprar.)
Saturday, May 07, 2011
Coisas que eu quero para os anos #8
Friday, May 06, 2011
Coisas que eu quero para os anos #9
Já só faltam 9 dias para o meu aniversário.
O benemérito que comprar esta prenda, que o faça tendo em atenção o seguinte:
- Estarei em Londres (em princípio) de 9 a 13 de Junho. Obrigado.
(Nada de coxias e lugares atrás de colunas. Quero na plateia, se faz favor.)
Esta prenda podem-ma comprar aqui.
O benemérito que comprar esta prenda, que o faça tendo em atenção o seguinte:
- Estarei em Londres (em princípio) de 9 a 13 de Junho. Obrigado.
(Nada de coxias e lugares atrás de colunas. Quero na plateia, se faz favor.)
Esta prenda podem-ma comprar aqui.
Thursday, May 05, 2011
Coisas que eu quero para os anos #10
Tuesday, April 26, 2011
Talking Funny
Queria só dizer que isto é muito bom.
Não no sentido "muito bom" de "muita bom! Tem bués de piada!" mas no sentido "muito bom" de "vale a pena ver os maiores a conversar". Sobre ser-se os maiores.
Sobre como o Seinfeld ainda tem nervosismo antes de entrar em palco. Que eles também duvidaram deles próprios no início. Saber que há quem seja piquinhas. Quem seja infantil. E quem seja asneirento. E que todos, apesar de saberem que são os melhores, trabalham todos os dias para continuarem a ser.
A comédia americana pode ser uma realidade a palcos, comediantes e piadas de distância da portuguesa mas faz um calorzinho no estômago bom acompanhar esta hora de conversa e saber, sem qualquer dúvida, que todos os dias faço aquilo que mais gosto.
É por isso, que é muito bom.
E está apenas a um torrente de distância.
Não no sentido "muito bom" de "muita bom! Tem bués de piada!" mas no sentido "muito bom" de "vale a pena ver os maiores a conversar". Sobre ser-se os maiores.
Sobre como o Seinfeld ainda tem nervosismo antes de entrar em palco. Que eles também duvidaram deles próprios no início. Saber que há quem seja piquinhas. Quem seja infantil. E quem seja asneirento. E que todos, apesar de saberem que são os melhores, trabalham todos os dias para continuarem a ser.
A comédia americana pode ser uma realidade a palcos, comediantes e piadas de distância da portuguesa mas faz um calorzinho no estômago bom acompanhar esta hora de conversa e saber, sem qualquer dúvida, que todos os dias faço aquilo que mais gosto.
É por isso, que é muito bom.
E está apenas a um torrente de distância.
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Saturday, April 09, 2011
Pão de Alho
Eu e a minha namorada fazemos 6 meses hoje.
Ela adora pão de alho.
Eu escrevi-lhe este texto.
"O pão de alho
O pão de alho tem dois ingredientes essenciais. Não são segredo - porque quem o baptizou não permitiu - mas são fundamentais. Um pão sem alho não é metade do que podia ser e o alho sem o pão, não é o prato que deseja ser. O pão é comum, popular e, muitas vezes, desvalorizado. É tomado por garantido. Já o alho é um caso especial mas subvalorizado. Está sempre por lá, fala-se dele e sabe-se quem é, mas raramente se pára para lhe dar a devida atenção. E eles souberam fazer isso, um pelo outro. São conhecidos por todos, usados por todos mas é quando se juntam, pingando manteiga quente por onde passam, que se vê e sente o prazer de se unirem. Só um olhar já aquece os dedos, molha a boca e solta o espírito. O pão de alho não nasceu para ser feito, e até demorou a ser cozinhado, mas assim que é preparado já não pode ser separado.
Ao pão, há quem o ache básico. Simples. Uma mera plataforma. A história, e os entendidos, discordam - o alho também. O pão esteve sempre lá, quando mais precisaram dele. Disponível, vida após vida. Forno após forno. Boca após boca. É verdade que o pão não é gourmet por si mas é um ingrediente que sempre soube marcar presença entre os grandes. A vê-los. A observá-los. A apoiá-los. Sempre nos bastidores do que eram orgias de palato de outras mesas de jantar. É versátil e volátil. É trabalhador. É permissivo mas saboroso. Sabe quando é o seu tempo. E o seu grande trunfo é servir tão bem sozinho como a acompanhar. É perfeito para quem só quer matar a fome ou saciar-se com gosto porque está bem com o pequeno-almoço, o almoço ou o jantar. E ai! de quem se esquecer da ceia. O pão é a estrela polar culinária que tomamos por garantida, que seguimos sem saber apreciar a sua luz.
Já o alho, é visto como um mero “acrescento”. É louco, um atiradiço que aloura com facilidade, que sofreu maus tratos sempre que ficou passado. Quer atenção, quando a pede e como a pede, e faz birra se não lha derem. Foi atirado, esquecido, usado por tanta mão inexperiente. O alho só quer dar sabor. Realçar o que há de bom nos outros. É único, especial e forte. Quando aparece, faz-se notar. Quer agradar e gosta que o saboreiem com veemência, prazer e tempo. É um profissional do afecto e do carinho ao palato e gosta de se sentir importante.
Foi no pão que encontrou o seu propósito.
No prato que se designa, falta apenas a salsa e a manteiga porque o pão e o alho não são exigentes mas gostam de estar completos. Lutam por isso. A manteiga não é mais do que um amor que os une. Sim, porque o pão e o alho precisam desse abraço para se agarrarem. Aconchega-se com ele, deixando-se levar sem luta. Calmos. A salsa, salpicada por cima da manteiga, dá acção ao que parecia monótono, monocórdico e monocromático. Salpica-se, surumbica-se, provoca e mexerica. Dá movimento e, se na medida certa, nem se dá por ela. É natural. Necessária e discreta.
O pão e o alho, sozinhos, podem não ter mudado a história da culinária mas é quando se juntam que merecem um lugar nos menus e nos livros de culinária. É só pôr-lhes a língua em cima. Estão perfeitos um com o outro. Podem abusar um do outro, falhar ocasionalmente nas quantidades e/ou no uso, mas acabam inevitavelmente por se dar bem. Por gostar um do outro. Não há sabor como o deles.
Sorvem-no como entrada os comilões, que não sabendo como vão ficar satisfeitos depois de o comerem, são garganeiros e querem saltar logo para outra. Parvos. Mas o pão de alho não se importa. O pão e o alho continuam abraçados, quentinhos, no conforto da louça de cozinha.
Comem-no com cuidado os epicuristas gulosos. Puxam por dele. Deliciam-se, dando-lhe um nome e uma fama. São poucos os que o sabem apreciar mas o pão de alho não se importa de ser ignorado. Está lá para si, não está para os outros. O pão já habituado a ser o conforto da larica dos outros, o alho já satisfeito de ter alegrado o refogado dos outros. Têm tempo um para o outro.
Desejam-nos os conhecedores, pois não é comum sonhar-se, desejar-se e lutar-se por um. É uma “entrada”, um “couvert”, um “aperitivo”. Idiotas, os que o desvalorizam. Os espertos, os verdadeiros degustadores, sabem como procurá-lo e fazem dum prazer muito seu o facto de o encontrarem. Ele costuma estar por aí. Feliz e completo na sua companhia. Não faz por ser notado porque está onde quer estar.
Quem o morde sabe o bem que sabe. É algo nunca antes provado, com o alho a saber aproveitar-se do espaço e da disponibilidade do pão, e o pão a pavonear-se de ter o alho consigo.
O pão de alho não é um prato original, de fazer parar o trânsito da gastronomia, mas é sempre das misturas mais inesperadas que saem as coisas mais óbvias. À primeira vista, o pão de alho pode pecar por parecer um caminho normal mas é um casamento que nunca desapontará. Se o pão e o alho continuarem a tirar o melhor um do outro, nunca deixarão de fazer do forno, um mundo só seu.
O alho era do que o pão mais precisava.
O pão conseguiu dar sentido ao alho.
Uma dentada, por sua vez.
Um prato de cada vez."
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