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Monday, August 24, 2009

All Garve and no Lisbon make Gui a Happy Boy #3

Esta última crónica alusiva ao Algarve é sobre amizade. Ou falta dela.
É como que uma pequena lição de vida mascarada de relato jovial e leviano de uma experiência pueril em terrenos algarvios. Mas é uma pequena lição de vida.
A amizade não é mais que um conceito que vem em pacotes de 70 quilos, chamados amigos. São esses amigos que estão lá para nós, que nos acompanham em momentos bons e maus, que nos dão o que nos falta e que nos tiram aquilo que temos a mais. Isso são amigos. Pessoas com quem temos prazer de partilhar conversas e momentos. Pessoas disponíveis para nos ajudarem e acompanharem na nossa vida.
O problema é quando esses amigos não estão lá para nós.
Era a minha noite de beber. Eu, o condutor e o Vítor – sim, ostento aqui o nome do indivíduo “formely known as” meu amigo para todos se precaverem – fomos todos novamente para o Deck. O leitor mais atento destas pequenas crónicas já deve ter percebido que vamos constantemente para o Deck de Vilamoura. O parágrafo seguinte explica bem porquê.
Todas, mas todas as pessoas que estão naquela área do Algarve vão para o Deck antes de saírem. Se não o fizeram, foi porque não iriam sair. Ou porque ficaram fechados na casa de banho sem conseguirem sair. Ou porque morreram. Todos os jovens sedentos de corpos suados a dançarem ao som de músicas repetitivas em discotecas algarvias, começam a sua noite no Deck. Homens e mulheres.
E como faltava nestes pequenos relatos, é de mulheres que esta história versa.
Fui buscar uma cerveja para mim, deixando o Vítor e o Condutor a conversar uns metros atrás de mim. Quando cheguei ao bar, pedi uma cerveja de 75cl. O leitor mais fiel a estes pedaços de histórias estará lembrado do meu desafio com S. e uma desta cervejas, mas esse dia foi depois deste. Eu tomei conhecimento desta tamanha cerveja nesta mesma noite.
Pedi a cerveja, e quando o fiz, uma rapariga baixa, bem arranjada e bastante agradável ao olhar parou ao meu lado. Enquanto o rapaz do bar me tirava 75cl de cerveja de dentro de um barril para dentro de um copo, ela fez o seu pedido. A mesma coisa que eu. Eu olhei para ela, reconhecendo a ligação, e ela sorriu. Quando o rapaz do bar pousou o meu recente adquirido copo, eu simplesmente o movi até ela. Sim, foi respeitoso. Sim, foi cordial. Sim, foi uma forma de meter conversa com ela. Ela pediu a mesma coisa que eu. Eu fui cavalheiro e dei-lhe o copo que seria para mim. Esperar mais uns minutos, que ele tirasse outro copo, não me iria matar. Ela gostou do gesto.
“Isto custa quanto?” perguntou. Eu respondi pelo rapaz do bar. Ela contra atacou, “E uma das de 33cl?”. Eu voltei a bater o rapaz do bar na velocidade de resposta. “Então, estou a ganhar dinheiro se pedir uma destas e não três das outras, certo?” O rapaz do bar nem tentou responder. Eu disse-lhe que “sim, mas que também um copo desse tamanho dá para a noite toda”. Estas minhas palavras despoletaram o que poderia ser o início de uma grande amizade. “Achas? Eu bebo isto em minutos…” e sorriu, completando: “Eu sou do porto”. Eu já tinha percebido pelo sotaque, mas como a minha destreza pela localização de sotaques me podia levar até Braga ou Tui, foi o facto de ela dizer que bebe muito, que me fez confirmar que era do Porto.
A conversa evoluiu para a minha total aceitação que sim, no porto se bebe mais que em Lisboa. No meio da troca alegre de palavras, lembrei-me de que os portistas são conhecidos por outra característica… “Como é que te chamas?”. São desbocados e directos. “Guilherme, e tu?”, “Joana”. Enquanto sorri pela virilidade da pergunta, ela melhorou o ambiente. “Vais sair para onde, Guilherme?”. Não sei se era do ar, se passava alguma brisa, mas a noite estava a ficar bastante agradável.
“Então, a ver se nos vemos por lá. Até já, Guilherme” e piscou-me o olho, indo embora. Eu fiquei parado, a analisar os minutos anteriores em câmara lenta, não fosse haver um penalti mal marcado, e peguei na minha cerveja. Quando levantei os olhos, o rapaz do bar sorriu-me. Era um sorriso de companheirismo. De reconhecimento. De respeito.

Quando voltei para junto dos meus amigos, ou como eu lhes gostava de chamar na altura, contei-lhes o que se tinha passado. A primeira pergunta deles foi esperada: “Era gira?”. Respondi afirmativamente. A segunda também: “Houve flirt?” Respondi afirmativamente. A terceira lançou o triste desfecho que esta história tem. “Ficaste com o número dela?”. Não respondi.
Eu não tinha ficado com o número dela. Erro? Não me parece. Tinha tudo corrido bem como tinha corrido. Mais, teria sido demais. Menos, teria sido triste. A única coisa que eu tinha dela era a sua localização nas próximas horas, onde estaria a dançar com as amigas. E com 75cl de cerveja no estômago. Disse-lhes isso.”Ela vai sair e perguntou-me se eu ia… Pessoal. Temos de ir sair hoje!”. A amizade, despedaçada e humilhada, morreu nessa altura.
“Heya, sair? Pá, bora deitar cedo hoje. Amanhã fazemos um bom dia de praia e saímos à noite. Vais ver que ela está lá à mesma…”. Cada palavra desta frase, juntamente com a concordância nojenta que ambos os meus “amigos” tinham no seu sentido, fizeram-me ter pequenos vómitos na boca, tristeza e um pouco de raiva pela total falta de… eu explico.
É que nem é só falta de amizade, chega mesmo a falta de… humanidade. Que ser humano vê outro perto da felicidade e lhe retira isso? Não é isso maldade? Ter prazer no sofrimento dos outros? Ou simples indiferença na existência e alegria do outro?
Para eles foi apenas uma noite, e um cansaço. Para mim foi um pequeno harakiri na amizade que existia até então.
Não fomos sair. Eu não tinha carro, boleia ou maneira de me mover. Eles tinham o carro, os horários e basicamente, os meus testículos saltitantes na mão. Não fui sair.

ADENDA NECESSÁRIA: Não voltei a ver a Joana até alguns dias depois. Adivinhem. Estava no Deck, sim… a conversar com outros rapazes. Não lhe falei mais. Não que exista aqui ciúme ou raiva, há apenas reconhecimento de como o mundo gira. Sobre si próprio. Tinha passado a minha janela, a minha oportunidade, a minha cerveja de 75cl. Quando precisei de amigos, não os encontrei. Estava sozinho, alcoolizado o suficiente para não puder conduzir, e com a certeza que naqueles dois, não tinha “companheiros”. Porque, leitores, o que quero que tirem deste relato é isto. Os “amigos”, só são verdadeiros “amigos”, quando são “companheiros”.

ADENDA DESNECESSÁRIA MAS ÚTIL: Nos dias seguintes, aqueles que usei para gozar com aqueles dois otários como se não houvesse amanhã, apercebi-me de uma coisa. Joana’s haveriam várias no Deck. Na vida. Dois otários que me dessem razão de gozo eterno… poucos. O meu copo tinha de ficar meio cheio, ok?

Saturday, August 22, 2009

All garve and no lisbon make Gui a happy boy #2.5

Embora pareça mas não ameace, a noite dos “100 metros” de 75cl de cerveja não acabou por ali.
Horas depois do desafio com o meu amigo S., já eu estava bastante para lá de “Bagdad”. Digamos que eu já era nessa altura uma central de cervejas móvel, em busca de toda e qualquer casa de banho que encontrasse… quando me cruzo com uma rapariga no meio da rua.
Não sei porquê, juro que não sei, disse-lhe “boa noite”. Sim, é bem-educado cumprimentar as pessoas com quem nos cruzamos, mas uma estranha que se cruze com um rapaz semi-alcoolizado que lhe diz boa noite não vê “educação”, vê “engate rasca”. E vê bem. A verdade é que eu não a estava a engatar, nem nada do género (desculpa, Zézé), estava apenas a ser engraçadote e cordial.
Enquanto esperei apenas uma reacção fria e distante, ou mesmo nenhuma recção – o esperado na situação que descrevi – ela respondeu. E foi aí que entre na “twilight zone”.
Disse boa noite e ouvi as últimas palavras que esperei na altura. “Não é nada uma boa noite! A Maria arranja-se toda porque faz anos, sai à noite toda bem disposta e as amigas dela de repente desaparecem… Não sei delas…”. Primeiro pensamento que tive na altura: é bom não ser o único alcoolizado no Algarve. Segundo pensamento que tive na altura: isto vai dar “molho”.
Resolvi entrar na toca do coelho, caindo até um mundo onde encontrasse a Alice e a sua mesa longa de chá, repleta de chapeleiros loucos.
“Primeiro que tudo, parabéns, Maria. Que contes muitos e bons. Agora vamos lá procurar as tuas amigas… viste de que lado?”. Com estas palavras entrei numa situação de semi-flirt/desenrascanço de uma donzela embriagada/parvoeira de verão. Ela agradeceu os parabéns – nunca olhando para mim como um violador, o que foi agradável - pediu mais uma vez para eu olhar para o vestido que alegremente tinha vestido para a ocasião e explicou de que lado é que vinha. Eu alistei-me nessa altura para procurar as amigas dela.
Nos dez metros que percorremos para encontrarmos as amigas dela percebi duas coisas. Primeiro, que ela era um “peixe de aquário”. Não há outra explicação para se ter perdido das amigas ali tão perto que não fosse ter uma memória de apenas 3 segundos. Segundo, que se chamava Maria Bettencourt, que era divertida e que podíamos ser amigos. Porquê? Ela em 30 segundos que esteve comigo disse que eu tinha piada. Sim, estava bêbada. Sim, a cabeça dela obviamente não estava a funcionar na total das suas capacidades. Mas disse.
Quando avistamos as amigas, a loucura cresceu de tamanho. “Olha, vou dizer-lhes que és amigo da minha irmã. Chama-se X, não te enganes.” Eu nem tive tempo de responder ou sequer criar um raciocínio lógico que fundamentasse uma necessidade para tal afiliação. A Maria já estava com as amigas. “Então, onde é que vocês andavam?! Deixaram-me ali… Este é o Guilherme. É amigo da minha irmã.”
Eu já disse piadas, em espectáculos, que não resultaram minimamente. O silêncio e a animosidade que presenciei nesses momentos não foi nada em comparação com o que as amigas da Maria me mostraram naquela altura. Tornei-me invisível. Fui ignorado e olhado de lado como se tivesse Gripe A, malária, herpes genital e cartão de sócio do FCP, e tudo publicitado na t-shirt. Foi então que percebi. Estas “amigas” da Maria tinham-na perdido de propósito. Eu fui o c*br*o que a trouxe de volta. Em poucos segundos despedi-me da Maria Bettencourt e pirei-me dali. Precisava da realidade de volta. Nunca tinha precisado tanto dela. A Maria era gira de corpo, feia de cara e louca de universo.

Epílogo: Três dias depois vim-me embora do Algarve. Parei numa bomba de gasolina e olhei para a capa da Bola. É costume. Sou português e tenho pénis. Mesmo que não queira, a minha biologia obriga-me a relançar pelas capas desportivas. Na capa da Bola estava uma notícia que figurava o Presidente do Sporting a dizer bem das contracções do Benfica. Enquanto me ria e imaginava o como os Sportinguistas iam gostar daquilo… lembrei-me do apelido da Maria “não sei das minhas amigas, faço anos e estou de vestidinho especial para passar a meia noite”. Bettencourt. A Maria era feia de cara porque era igual, prensada a quente em máquina industrial, do presidente do Sporting. Naquela altura estava capaz de apostar um testículo, com opção de lateralidade, que ela era a herdeira do actual presidente do Sporting. Mas…

ADENDA NECESSÁRIA: …convém dizer, para o bem da verdade “desportiva” (várias camadas existem nesta escolha de termo) que ela não era filha dele. Era só mais uma Betencourt dos muitos que devem existir em Lapas e Quintas do Lago desse país fora. Mas se quiserem, e eu dou-vos total permissão para isso, podem contar esta história como se fosse. A história merece. Nem que seja, em honra da total insanidade que foi o meu encontro imediato de grau 1.5 de alcoolémia.

Wednesday, August 19, 2009

All garve and no lisbon make Gui a Happy Boy #2

Todos os jogos de beber são parvos.
Todos.
A “mão direita ser penalti”.
O X querer ou não “ser cá da malta”.
Todos os jogos de beber são parvos e são evoluções naturais do brinde. O brinde não é mais que um reconhecimento da amizade e carinho que se tem pelas pessoas com quem se choca o copo e pelo tema pelo qual se choca o copo. As variações vieram em anos posteriores. As ressacas vieram em manhãs posteriores.
No entanto, há uns jogos mais primitivos e primários que outros. Há jogos elaborados, como a Árvore das Patacas, o Anel de Fogo ou o Ping. E há jogos estúpidos e medievais. Como o… “vamos ver quem bebe primeiro este copo todo”.
Quero dizer, em jeito de lançamento dos parágrafos seguintes, que não bebo para ficar bêbado. Acho uma noção parva, deprimente e totalmente desprovida de bom senso. É assim que as pessoas acabam alcoólicas ou presas quando só começaram parvas ou com sede.
Nessa noite eu já estava tocado, verdade. Não nego. Tenho um esquema com um amigo que é simples e saudável. Da frequência normal daquele carro só nós os dois temos carta, portanto se ele bebe, eu não. Se eu bebo, ele não. E vamos alternando. Para sorte dos conduzidos e azar do me fígado, era a vez dele de conduzir. E apenas tocado tinha aceite um desafio daqueles. Espero eu.
No meio do “Deck”, ao lado da Marina, estavam com um indivíduo que a partir desta linha se chamará S. S é dos maiores bebedores que já vi na minha vida. E não esconde. Aliás, mesmo que quisesse, as histórias, os números e as estatísticas hão de o perseguir enquanto ele conseguir pegar num copo. E surrupir o que lá dentro estiver.
Nos bares do “Deck”, e não me perguntem porquê, há duas variantes de copos de cerveja. Um copo de 33cl e um copo de 75cl. S iluminou-se como o estádio do Benfica em dia de derby quando ouviu falar da segunda variante. “Desafio-te…” foi a palavra que mudou a minha noite.
Basicamente, e para saltar um pouco de suspense directamente para a acção, ambos acabámos com um copo de 75cl na mão, a olhar olhos nos olhos o nosso oponente. Só para terem uma noção ao ler isto da quantidade de cerveja, o copo pesa. Nunca tinha bebido de um copo que pesasse. Quando uma pessoa nota o peso do copo pelo qual está a beber, sabe que algo já está errado.
Em “3, 2, 1…” eu e S começámos a fazer desaparecer a cevada fermentada. Não tenho noção de quanto tempo demorou a “batalha”, nem de quantos golos tive de dar, nem da minha figura para quem passava ao nosso lado. Sei que ganhei. E sei que “arroto” ganhou uma nova conotação na minha vida.
Quem bebe cerveja, para além de ter barriga, sabe que quando se subtrai a sua essência depressa demais, ar condensado sobe até à nossa garganta. Mas quem bebe cerveja não tem noção do que é um arroto provocado por 75cl de cerveja bebida quase de penalti. Não foi, porque não queria que na minha lápide dissesse: “Aqui jaz Guilherme, que morreu afogado com cerveja enquanto tentava ganhar apenas honra, sim não havia dinheiro envolvido na aposta, era apenas honra.”
Os arrotos pareciam soluços. Vinham entre golos, depois de golos e antes de golos de cerveja. Para bem da minha vitória e resultado, nunca vieram durante golos de cerveja. Que fique registado que eu, Guilherme Fonseca, ganhei a S a ver quem bebia 75cl de cerveja mais depressa. Que fique registado que o meu orgulho está envergonhado e que vai voltar para dentro. Obrigado.
(ADENDA: No final, como bons otários e bebedores que somos, fizemos um “double or nothing” de desforra - o S merecia, tinha uma imagem a limpar – com um copo de 33cl. Esse resultado pouco importa, como o leitor mais competitivo sabiamente saberá mas aqui fica registado, para o caso do Guiness aqui passar, que S ganhou. Ele é campeão dos “copos leves”, eu dos “copos pesados”.)
Apenas uma dúvida me permanece daquela noite. Não é se a diversão do momento se sobrepôs à estupidez e infantilidade do acto, não. Não é se o gesto fez de mim o macho alfa do meu grupo de amigos, não. Nem é se aos 40 anos vou lamentar aquela noite quando estiver no ginásio a chorar por dentro por causa da minha barriga protuberante, não. É apenas e só se hei de pôr este resultado no meu Currículo Vitae.

Sunday, August 16, 2009

All Garve and no Lisbon make Gui a Happy Boy #1

T Clube. Algarve.
Para quem não conhece é uma discoteca que fica entre a Quinta do Lago e Vale do Lobo.
Para quem não conhece, são os dois sítios onde a nata da sociedade portuguesa passa férias.
Os parques de estacionamento das respectivas praias são mais caros que qualquer stand em Portugal.
As praias são as únicas do país em que as mães são tão boas como as filhas.
No centro, e frequentados durante a noite, o T Clube e a Trigonometria estão lado a lado. A Trigonometria é a discoteca dos filhos, o T Clube a discoteca dos pais. A Trigonometria tem centenas de crianças bêbadas com dinheiro a mais, o T Clube tem centenas de pais dessas mesmas crianças, a quem dão dinheiro a mais.
Na minha primeira noite de Algarve, uma amiga disse conhecer o RP do T Clube e sugeriu irmos lá beber um copo, entrando sem consumo mínimo. Não me pareceu mal. Nessas condições até no Inferno beberia um copo. (Sítio onde maior parte da frequência do T Clube vai acabar invariavelmente a eternidade a sair à noite.) Quem quer pagar consumo mínimo para ver donos de iates e de acções de multinacionais a dançar, abraçados a mulheres 30 anos mais novas que eles? Not my kind of fun.
Com saudades do já extinto Klube, que muitas noites me alegrou em temporadas de Algarve, lá me aventurei para o T Clube.
À entrada a referida amiga cumprimenta o RP do espaço e aponta para o grupo atrás de si. O rapaz dá uma vista de olhos a todos e pára em mim e noutro amigo meu.
(Adenda necessária: Eu estava de t-shirt preta, do Hardrock, com uma guitarra, calças de ganga e sapatos bejes. Normal. O meu amigo – vítor - tinha a barba por fazer, piercing no lábio, t-shirt branca, tatuagens no braço esquerdo e umas calças de ganga acabadas com All-Stars. Eu estava normal. Ele estava “rocker”. Como na verdade… é.)
O RP olhou para nós e disse à amiga: “X, o pessoal hoje está um bocado… alternativo.”
O vítor riu-se, eu fiquei estupefacto. Nunca tinha sido rotulado de “alternativo” por associação. Estar ao lado de um amigo com tatuagens, vestindo a minha t-shirt com uma guitarra, fez de mim… alternativo. Resultado entraram todos com cartões sem consumo menos nós. Mas o T Clube tinha um negócio para nos oferecer. Ou uma alma para nos comprar.
Era noite de uma acção de beneficiência encabeçada pelo espaço. T-shirts estavam a ser vendidas e as receitas iriam ser revertidas a favor de alguém que, honestamente, não faço a mínima ideia que era. Não me explicaram isso. Só que para passar aquela porta, tinha de vestir aquilo. Eu e o Vítor vestimos aquelas t-shirts, o vítor tirou o piercing e tapou as tatuagens com um casaco e lá entramos, com um cartão sem consumo e 15 euros de tshirt por pagar. Um negócio rasca mas que me tornava muito menos “alternativo” para o espaço.
Estivemos lá dentro uma hora. Estava vazio. Vi ingleses agarrados a inglesas e a garrafas de champagne, ouvi música dos anos 80 que só ouço no Platou e fiquei com ainda menos vontade de lá voltar. Uma imperial… 7 euros. Uma caipirinha… 14.
Aquilo não é o meu espaço. E não por uma questão de não ter um centésimo do dinheiro na conta que aquelas pessoas têm. Simplesmente porque não é. Não quero estar na capa de revistas, não quero convidar outros cirurgiões e empresários para o meu barco e muito menos quero conhecer a fantástica e plástica filha do tio do primo do médico do senhor engenheiro que vai casar em Setembro com o forcado filho do dono da empresa que gere as toneladas vindas da argentina todas as quintas em petroleiros.
Á saída fui buscar a minha t-shirt alternativa, mostrei o meu cartão que sem consumo, me custava 0 e sai. Só cá fora é que me apercebi. Não paguei a t-shirt.
Estive no T Club, sem pagar, sem consumir e sai de lá com uma t-shirt grátis, que me levou de “alternativo” a “caridoso e atento a causas sociais graves”. Causas essas que não me lembro porque não me explicaram quais eram. Nem estão descritas na própria t-shirt.
Querem ouvir a piéce-de-resistênce? Não vi nem uma pessoa com uma t-shirt daquelas lá dentro. Nem uma. Eu e o Vítor, os alternativos, fomos os únicos que abrimos um pacote com uma t-shirt daquelas. Os “alternativos” eram de tal forma “alternativos” que foram os únicos que apoiaram causas sociais por definir. Os “alternativos” usam as únicas t-shirts de beneficência, que custam 15 euros. Os “normais” bebem caipirinhas que custam 14.

- Conto só mais uma história dessa noite. A amiga que nos meteu lá dentro, que ficou honestamente desconfortável com a ocorrência da “alternatividade”, já estava bastante tocada. É das poucas pessoas “loucas” que conheço que o são de uma forma saudável, alegre e bem disposta. Onde quer que esteja é a “pulsação” de uma festa, e sempre será. A tal X dentro da discoteca, viu uma rapariga que conhecia. Aproximou-se dela e fez-lhe uma pergunta. Enquanto esperava pela resposta olhou para ver com quem a sua amiga conversava. Era o Sá Pinto. Ela olha para o Sá Pinto e simplesmente diz: “Desculpa, mas sou do Benfica.” E vira-lhe a cara. O Sá Pinto riu-se e acabou a pagar-lhe uma bebida. Enquanto conversavam, ela conseguiu “melhorar” a situação. Virou-se para o Sá Pinto e disse “És um porreiro… mas não jogas um cu”. Quem fala assim não é gago. E normalmente já está alcoolizado.